O Grito e a Jarra

Jaime preferiu enganar a si próprio pensando "é minha imaginação" e seguir em frente, do que admitir que estava com medo. Aquele navio havia sido abandonado às pressas, com certeza, e ele estava completamente alerta para qualquer sinal de perigo, apesar da ressaca.

Com o passo apressado, e olhando para trás com alguma frequência, chegou, enfim, à popa. Encostou na amurada para respirar um pouco e admirar o mar. Com horror, notou corpos boiando em meio a destroços. Uma crescente náusea se juntou ao balançar do mar, levando-o a vomitar em jorros até ficar sem ar, prostrado de joelhos no chão, apoiando as mãos em sua própria sujeira.

"Mas que diabos aconteceu aqui?"

Levemente recomposto, sentou-se e olhou ao redor. Era realmente um cruzeiro de luxo, com superstrutura robusta, mas que não era realmente o destaque da arquitetura. Assim como na proa, ali também existiam muitas áreas abertas com cadeiras de sol, mesas e guarda-sóis. Essa região da embarcação, aparentemente, não havia testemunhado muita ação; de forma que os objetos estavam em seus devidos lugares. Limpou o resto de vômito com as costas das mãos e resolveu subir a escada mais próxima para ter uma vista melhor, encontrar alguma pista importante, ou quem sabe encontrar o passadiço. 

Enquanto subia, ouviu um terrível e longo grito vindo da proa, aparentemente originário do mesmo lugar em que começou sua jornada. Um calafrio tomou sua espinha, enquanto digeria a angústia e o desespero propagados por aquela melodia horrenda, que ainda ecoava em sua mente.

E agora? Interromperia sua subida para investigar? Afinal, Jaime procurava exatamente por isso; sinais de vida. Por outro lado, o que quer que tivesse acontecido por lá, poderia ter relação com os corpos que adornavam solenemente os arredores do navio. Não era um sinal de vida se esvaindo que Jaime procurava, afinal. Pareceu lógico continuar subindo, observar as coisas de cima e ter controle da situação. A adrenalina lhe deu forças para chegar até o último deque, ofegante.

Sobre uma mesinha redonda, havia uma jarra diferente, opaca, esculpida em figuras difíceis de se identificar. Era de madeira, afinal. Ao cheirar seu conteúdo, não detectou nada de estranho. Afinal, parecia apenas com água.


Beber


Não beber