Jaime se esgueirou por um estreito corredor perpendicular ao convés, esperançoso de encontrar enfim, alguém para compartilhar aquela situação cada vez mais angustiante. O caminho não era estreito, mas estava entulhado de malas, carrinhos de serviço e toda sorte de destroços. Uma boa parte do encanamento exposto na parede estava destruído, com pedaços pendentes que obstruíam o caminho.
Aquele som inconfundivelmente humano que o havia impelido a investigar o interior da embarcação não se repetira. Teria ele imaginado coisas? Estava considerando retornar, quando escutou passos no final do corredor. Uma olhada cuidadosa revelou que ao final, o corredor comunicava-se com outro, transversalmente; e que a porta estava entreaberta.
Um tanto quanto temeroso, Jaime reduziu a velocidade do seu avançar, tentando escutar algo mais. Ao coçar vigorosamente seu farto bigode, manifestava sua inquietação. Parou. O silêncio absoluto indicava que quem quer que estivesse do outro lado, possivelmente havia percebido sua aproximação. Temendo algum incidente desencadeado pela tensão, decidiu manifestar sua presença:
- Ei! Tem alguém aí?
Um discreto ecoar de suas palavras reverberou pelas paredes metálicas, ignorado solenemente pelo seu alvo.
- Precisa de ajuda? - Insistiu.
Profundamente perturbado, Jaime suava frio, e já considerava a idéia de voltar e esquecer aquilo tudo. Foi com uma medonha surpresa que, ao se virar para trás, deparou-se com uma figura humanóide medindo menos de um metro e meio que lhe apontava uma enorme peixeira.
Com um grito de terror, arremessou uma bandeja prateada no anão ameaçador, e correu em direção aos corredores desconhecidos, atropelando e tropeçando em taças, malas e cortinas, enquanto o pequenino ser urrava de ódio brandindo seu facão no ar.
Completando sua fuga ridícula, Jaime fechou e trancou a porta escotilha, protegido agora naquele corredor que desconhecia, onde estava a origem dos ruídos misteriosos. Ofegante, ao olhar pela vigia da porta, incrédulo, viu o anão desaparecer rapidamente no fim do corredor, retornando ao convés.
Mal teve tempo para refletir e entender os acontecimentos dos últimos segundos, ouviu aqueles familiares passos vindos do fim do corredor em que encontrava-se agora. Que, aliás, estava extremamente escuro; a vigia da porta fornecia a única fonte de iluminação. Acompanhando os passos, vieram os gemidos. Apavorado, não sabia se desvendava o mistério que se aproximava, ou se arriscava voltar para o hostil território habitado pelo anão.
Abrir a porta e voltar para o convés do navio