A sonolência e o frio tomavam conta de Jaime, que não sentia mais os próprios dedos. Sua mente começou a fraquejar, e ele podia sentir o próprio coração batendo, juntamente com a música composta por borrifos e pelo borbulhar de ondas se encontrando.
Sozinho no domínio do oceano, seu corpo branco destacava-se como um pequeno cisco naquela vasta superfície, um floco de gente, prestes a ser tragado por toda aquela força indomável e perene, mais antiga que a humanidade e que qualquer tipo de ser vivo.
Qual ser humano conseguiria sobrepujar tamanha ignorância e brutalidade? Que pretensão a dele, atravessar a nado as milhas que o separavam de um punhado de terra, tão pequeno quanto ele, se comparado ao mar. Sua prepotência deveria ser punida com a morte! Sim, o mar reclamava a posse do que era dele por direito! Um mero humano, que na segurança de suas pernas e rodas, em sua colônia de concreto e asfalto, um dia acreditou ser grande, poderoso e respeitado. Que nada. Naquele momento, Jaime percebeu que apenas o mar era realmente digno de ser admirado e respeitado por seu poder. Todas as coisas haveriam de acabar, mas o mar continuaria ali, eterno e imutável, embaralhando suas ondas e batalhando contra os fragmentos de terra que ousassem se erguer sobre o seu limiar.
Perdido nesses devaneios, Jaime mal percebeu quando sua carcaça pançuda encalhou em um leito arenoso. Na verdade, Jaime só se deu conta do que havia acontecido quando uma criança lhe cutucou com um pedaço de pau, no anseio de saber se ele ainda estava vivo.
E, ao girar a cabeça e ver uma praia lotada de banhistas, e salva-vidas vindo em sua direção, concluiu:
"Grandeza do mar - o caralho! Voltei para a civilização!"