O Magnífico Nadador

Com um salto, sem pensar muito, Jaime atirou-se ao mar, em uma tentativa heróica de nadar até a ilha, que erguia-se como símbolo de salvação àqueles de coragem espírito inabalável. Desgraçadamente, a altura era maior do que o esperado, e Jaime caiu de costas na água, com grande impacto.

Ao emergir, sentindo sua cabeça explodir de tanta dor, e com as costas ainda formigando, viu-se em uma cena chocante. Involuntariamente soltou um princípio de grito horrorizado, pois cadáveres boiavam ao redor do navio, por toda parte. Entretanto, o lamento foi interrompido por uma marolinha que entrou em sua boca, levando-o a engasgar.

Obviamente o navio estava à deriva, e as ondas que pareciam se chocar levemente contra o casco mostravam-se não tão delicadas assim, ao bater o desajeitado Jaime contra a quilha exposta.

Com algumas braçadas, Jaime afastou da sombra do navio e agarrou-se a uma espécie de prancha de fibra de vidro, seja lá o que aquilo fosse, para recompor as forças. Mas, tão logo recuperou a calma e pôde voltar a contemplar aquela solene decoração marítima, percebeu uma movimentação estranha entre os corpos e os destroços.

Com alguma incredulidade, entendeu que eram tubarões mastigando distraidamente todo o tipo de tecido orgânico que pudessem encontrar. Não era um frenesi violento; parecia mais uma degustação desinteressada. Petrificado, observou uma enorme cabeça cheia de dentes emergir e, com apenas duas abocanhadas, arrancar alguns nacos de carne de um gordo que boiava a apenas 10 metros de distância.

A adrenalina consumiu qualquer resquício da ressaca. Com o coração parado, e mais de 1/5 do seu corpo imerso na água, Jaime levou apenas 5 minutos (que em sua percepção pareceram 5 horas) para tomar coragem e dar lentas braçadas em direção à ilha, saindo daquele circuito gastronômico macabro.

...

Após duas horas de natação naquelas águas geladas, a ilha parecia tão distante quanto no início. Não bastasse o frio que sentia, o sol de meio dia queimava suas costas com violência, enquanto nadava. As esperanças abandonavam seu corpo, pedaço por pedaço, afundando no abismo azul (assim como sua pochete, que ofertou a Netuno por prejudicar seu desempenho hidrodinâmico).

Completamente sem fôlego, quase hipotérmico, desidratado e com dificuldades de manter as vias respiratórias fora da água, Jaime amaldiçoou a sua última noite e as consequências de sua aventura. Sem conseguir raciocinar direito, só enxergava duas escolhas lógicas ou possíveis: enfrentar sua extrema fadiga e continuar nadando, o que parecia demasiadamente árduo, ou entregar-se às correntes do mar e ser tragado pela morte, o que parecia uma idéia confortável, diante da sua incapacidade física e extrema exaustão.